21.8.15

Porvir

Esperneio entre as horas do dia e da noite
Espremido, nos minutos e instantes passados
Ancestrais
Ancestrais falam ao meu peito
Fazem vozes, caras, gestos
me fazem memória, me fazem saudade,
palavra cara e improvável.
Lembro a terra, a cor, a luz, o ar...
Lembro as frestas na madeira já roída
e o cheiro,
o cheiro é de porvir.

Caminho pelos meses,
ando, avanço... 
estamos em agosto.
Tudo que escrevo é de palavras marcadas no tempo
Tudo que vivo é o que penso que escrevo

Na Grécia,
uma criança interrompida
recebe da mão seca e árida da polícia
as boas vindas ao mundo civilizado
à vida adulta
ao lado sério da vida.
Ao cuspe salgado do Mediterrâneo, à baba raivosa da fronteira,
se completa mais cedo um ciclo qualquer.

Um violão galego arrepia meu intestino,
me põe de novo, no meu caminho sem saída,
no fim da fila,
no lugar herdado, na condição ancestral.

1.4.15

Rimas pobres, feias e fracas

Ando consumido pelo calor do fim de março
A Páscoa, atrás da porta, não significa nada,
quase nada ou pouca coisa
Pilões, pistões, pistolas, portões
Rimas pobres, feias e fracas,
não são flores
nem são nada
Marcam apenas a'gonia,
com que passo pela cidade
Piso, passo,
ando,
canto, bebo e danço
Tenho um sorriso loiro e pequeninho
a esquentar o peito:
mais verão em mim do que fora
Há tempo para o café - sempre
há acordes de muita história
há telhados de barro - ou será que não há mais?
Lirismo
lirismo não me basta
Quero a vida

29.9.14

Cogito

Um crime de amor
uma página de jornal bem estampada
revestida de gramática e sangue
O dia
A tarde em frente ao mar
na beira da praia
Choveu,
E por dentro de mim também
Gota a gota
o desperdício
o alívio
Medo da raça humana
da mãe que ensina os filhos a não mexer na macumba na esquina
do enrustido atrás da barba cerrada
do palhaço triste
Medo de arma de fogo.
Falta o riso bobo
que falta que o riso bobo me faz
E de cá,
do lado de cá dos cabos e conexões
as veias, o meu sangue,
carregam muito mais memória que cogito
Cogito.

14.2.13

fevereiro

Vinde a mim as palavras
com a feira feita
a barriga cheia (em breve)
e as plantas cuidadas
Vide minhas palavras
do sol de fevereiro
ardendo o verde no quintal
mas que quintal?
vento vem pela janela
vistoria a casa toda
sala a sala
quarto a quarto
se mostrando em silêncio
silencia a minha boca
vem o vento se mostrando
mostra a cor do dia
do verão inda ardente
mês de fevereiro e eu me ardo
cada dia mais contente

13.2.13

Quarta-feira de cinzas.

Hoje, quarta-feira de cinzas, até a feira falhou...
Descobri uma feira, dessas de bairro, na rua de trás do meu apê, faz algum tempo. Desde então, tem sido lá uma espécie de oásis... em meio a tantas frutas resfriadas, tanto fast-food e tanto hiper-mega-mercado-tudo... ali ainda se compra olhando no olho e conversando com o feirante...a verdura vem ainda suja de terra e, pasmem, tem até cheiro e gosto de verdura.
Mas hoje, quarta-feira de cinzas, até a feira falhou. Muito justo, diga-se de passagem. Afinal, até mesmo os feirantes têm direito à folia de Momo.
Inda assim, parecendo uma cena de livro de García Marquez, por milagre, estava ali a barraquinha de pastel. Nada mais brasileiro e, por consequência, nada mais pitoresco do que o pastel de feira...inda mais numa quarta-feira de cinzas.
Viva os japoneses do pastel. Viva o pastel de feira. Viva a feira. Viva o Carnaval.

8.2.13

Ainda...a luta

Ainda que eu seja desses que vai e volta
que não se contenta em simplesmente ser
que se incomoda com muito conforto ou muito desconforto
Ainda que eu tenha andado afastado e mudo
Ainda que o que eu digo seja fora de moda
mas, nunca, inadequado,
a luta é o que resta
é o que pulsa
é o que vale

17.12.12

curto a fome

curto a fome dentro de mim
da minha barriga
inda que seja errado e feio
ou imoral
curto a fome dentro de mim
espero o arroz
que ferve na panela na cozinha
inda que queime
espero a hora de comer
nem sei se chove
se faz sol ou se tem vento
já passou de meio-dia
tenho fome e paciência
tenho muito que esperar
ou talvez não tenha nada